26/08/2008 09:42
Fumo passivo mata sete por dia, diz estudo
Dados do Inca apontam que 2.655 pessoas morrem por ano sem terem fumado; número pode estar subestimado, diz pesquisadora. Pesquisa inclui só habitantes de áreas urbanas com mais de 35 anos como fumantes passivos; fumo em ambiente de trabalho fica de fora.
*Por Denise Menchen
Todos os dias, ao menos sete brasileiros que nunca fumaram na vida morrem por doenças decorrentes da exposição à fumaça do tabaco. Por ano, são 2.655 mortos. Os dados constam no estudo "Mortalidade Atribuível ao Tabagismo Passivo na População Urbana do Brasil", realizado por pesquisadores do Inca (Instituto Nacional de Câncer) e do Iesc/UFRJ (Instituto de Estudos em Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio de Janeiro).
Os números preocupam a pesquisadora Valeska Figueiredo, da Coordenação de Prevenção e Vigilância do Inca. "São mortes que poderiam ser facilmente evitadas. Isso mostra a necessidade de termos uma legislação mais rígida em relação ao cigarro", afirma.
Ela defende, porém, que as estimativas são "conservadoras". É que a pesquisa considera como fumantes passivos apenas os habitantes de áreas urbanas com mais de 35 anos, que nunca fumaram e moram com pelo menos um fumante. Ficaram de fora do cálculo, portanto, aqueles expostos à fumaça no ambiente de trabalho e os moradores de áreas rurais.
O estudo inclui apenas as três principais causas de morte por tabagismo passivo: câncer de pulmão, doenças isquêmicas do coração (como infarto e angina) e acidentes vasculares cerebrais. Outros problemas, como síndrome da morte súbita da infância e doenças respiratórias crônicas, não foram computados. "O número de óbitos provavelmente está subestimado", diz Figueiredo.
Segundo a pesquisa, de cada mil mortes por câncer de pulmão no país, sete podem ser atribuídas ao fumo passivo. No caso de doenças isquêmicas do coração, essa proporção sobe para 25 -e chega a 29 nos acidentes vasculares cerebrais.
Dependendo da doença, as mortes de mulheres são de 1,3 a três vezes mais elevadas que as de homens. Das 2.655 vítimas anuais, 1.601 ou 60,3% são de mulheres. A faixa etária que registra maior ocorrência, tanto em homens quanto em mulheres, é de 65 anos ou mais.
Segundo o Inca, o tabagismo passivo é a terceira maior causa de morte evitável do mundo, atrás só do tabagismo ativo e do consumo excessivo de álcool.
No Brasil, onde cerca de 16% da população é fumante, o fumo em ambientes públicos ou privados de uso coletivo é regulado pela lei federal 9.294, de 1996. O texto permite a criação de áreas reservadas para esse fim, o que é criticado por associações antitabagistas.
Os fumódromos, porém, podem estar com os dias contados. O Ministério da Saúde propôs emenda que proíbe o fumo em qualquer ambiente fechado ou semi-fechado. O texto já foi aprovado pela Casa Civil e aguarda envio ao Congresso.
"A lei atual está defasada e expõe as pessoas ao risco, especialmente os garçons que trabalham nessas áreas de fumantes. Não existe sistema de ventilação capaz de dissipar a fumaça, assim como não existem níveis seguros de exposição", diz a chefe da Divisão de Controle do Tabagismo do Inca, Tânia Cavalcante.
Frases
"São mortes que poderiam ser facilmente evitadas. Isso mostra a necessidade de termos leis mais rígidas em relação ao cigarro"
VALESKA FIGUEIREDO - pesquisadora da Coordenação de Prevenção e Vigilância do Inca (Instituto Nacional de Câncer)
"O número de óbitos [por fumo passivo] provavelmente está subestimado" - IDEM
Saiba mais
Inédito no país, o estudo "Mortalidade Atribuível ao Tabagismo Passivo na População Urbana do Brasil" tomou como base o total de mortes para cada uma das três principais doenças relacionadas ao tabagismo entre 2002 e 2004. Os dados são do SIM (Sistema de Informação de Mortalidade), do Ministério da Saúde.
Foi usado também um dado pesquisa do Inca e da Secretaria de Vigilância em Saúde, de 2003, sobre a proporção da população exposta ao fumo passivo.
Por fim, foram usados três estudos internacionais sobre o risco de morte de não-fumantes expostos ao fumo passivo. Com o cruzamento, foi possível obter as estimativas.
*Reportagem publicado pelo Jornal Folha de S. Paulo em 25/08/08.
enviada por Editor
26/08/2008 09:41
Fumo passivo mata sete por dia, diz estudo
Dados do Inca apontam que 2.655 pessoas morrem por ano sem terem fumado; número pode estar subestimado, diz pesquisadora. Pesquisa inclui só habitantes de áreas urbanas com mais de 35 anos como fumantes passivos; fumo em ambiente de trabalho fica de fora.
*Por Denise Menchen
Todos os dias, ao menos sete brasileiros que nunca fumaram na vida morrem por doenças decorrentes da exposição à fumaça do tabaco. Por ano, são 2.655 mortos. Os dados constam no estudo "Mortalidade Atribuível ao Tabagismo Passivo na População Urbana do Brasil", realizado por pesquisadores do Inca (Instituto Nacional de Câncer) e do Iesc/UFRJ (Instituto de Estudos em Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio de Janeiro).
Os números preocupam a pesquisadora Valeska Figueiredo, da Coordenação de Prevenção e Vigilância do Inca. "São mortes que poderiam ser facilmente evitadas. Isso mostra a necessidade de termos uma legislação mais rígida em relação ao cigarro", afirma.
Ela defende, porém, que as estimativas são "conservadoras". É que a pesquisa considera como fumantes passivos apenas os habitantes de áreas urbanas com mais de 35 anos, que nunca fumaram e moram com pelo menos um fumante. Ficaram de fora do cálculo, portanto, aqueles expostos à fumaça no ambiente de trabalho e os moradores de áreas rurais.
O estudo inclui apenas as três principais causas de morte por tabagismo passivo: câncer de pulmão, doenças isquêmicas do coração (como infarto e angina) e acidentes vasculares cerebrais. Outros problemas, como síndrome da morte súbita da infância e doenças respiratórias crônicas, não foram computados. "O número de óbitos provavelmente está subestimado", diz Figueiredo.
Segundo a pesquisa, de cada mil mortes por câncer de pulmão no país, sete podem ser atribuídas ao fumo passivo. No caso de doenças isquêmicas do coração, essa proporção sobe para 25 -e chega a 29 nos acidentes vasculares cerebrais.
Dependendo da doença, as mortes de mulheres são de 1,3 a três vezes mais elevadas que as de homens. Das 2.655 vítimas anuais, 1.601 ou 60,3% são de mulheres. A faixa etária que registra maior ocorrência, tanto em homens quanto em mulheres, é de 65 anos ou mais.
Segundo o Inca, o tabagismo passivo é a terceira maior causa de morte evitável do mundo, atrás só do tabagismo ativo e do consumo excessivo de álcool.
No Brasil, onde cerca de 16% da população é fumante, o fumo em ambientes públicos ou privados de uso coletivo é regulado pela lei federal 9.294, de 1996. O texto permite a criação de áreas reservadas para esse fim, o que é criticado por associações antitabagistas.
Os fumódromos, porém, podem estar com os dias contados. O Ministério da Saúde propôs emenda que proíbe o fumo em qualquer ambiente fechado ou semi-fechado. O texto já foi aprovado pela Casa Civil e aguarda envio ao Congresso.
"A lei atual está defasada e expõe as pessoas ao risco, especialmente os garçons que trabalham nessas áreas de fumantes. Não existe sistema de ventilação capaz de dissipar a fumaça, assim como não existem níveis seguros de exposição", diz a chefe da Divisão de Controle do Tabagismo do Inca, Tânia Cavalcante.
Frases
"São mortes que poderiam ser facilmente evitadas. Isso mostra a necessidade de termos leis mais rígidas em relação ao cigarro"
VALESKA FIGUEIREDO - pesquisadora da Coordenação de Prevenção e Vigilância do Inca (Instituto Nacional de Câncer)
"O número de óbitos [por fumo passivo] provavelmente está subestimado" - IDEM
Saiba mais
Inédito no país, o estudo "Mortalidade Atribuível ao Tabagismo Passivo na População Urbana do Brasil" tomou como base o total de mortes para cada uma das três principais doenças relacionadas ao tabagismo entre 2002 e 2004. Os dados são do SIM (Sistema de Informação de Mortalidade), do Ministério da Saúde.
Foi usado também um dado pesquisa do Inca e da Secretaria de Vigilância em Saúde, de 2003, sobre a proporção da população exposta ao fumo passivo.
Por fim, foram usados três estudos internacionais sobre o risco de morte de não-fumantes expostos ao fumo passivo. Com o cruzamento, foi possível obter as estimativas.
*Reportagem publicado pelo Jornal Folha de S. Paulo em 25/08/08.
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04/08/2008 10:37
Os seis pecados do greenwashing
Por Rogério Ruschel*
Greenwashing é a apresentação inexistente ou inadequada de benefícios ambientais ou socioambientais apresentados por empresas, serviços ou produtos. Recente estudo realizado com 1.758 promessas encontradas nas embalagens de 1.018 produtos disponíveis no mercado dos Estados Unidos revelou os seis pecados do apelo greenwashing. Veja quais são eles:
Pecado dos malefícios "esquecidos"
O principal pecado encontrado na pesquisa, estando em 56% dos produtos pesquisados, caracteriza-se pelo fato do produto destacar apenas um benefício ambiental e "esquecer" os outros. Exemplos: Meu produto é reciclável (mas é extremamente gastador de energia e água para ser produzido); meu produto é feito sem teste em animais (mas sua decomposição natural pode prejudicar a cadeia alimentar natural).
Pecado da falta de provas
Representando 26% das promessas encontradas, é utilizado por produtos que anunciam benefícios ambientais sem comprovação científica ou certificação respeitável. Nesta categoria são encontrados xampus que não são testados em animais, produtos de papel com uso de material reciclado, lâmpadas com maior eficiência energética - todos sem comprovação dos argumentos disponível ao consumidor.
Pecado da promessa vaga
Entre as promessas vagas - encontradas em 11% dos produtos pesquisados - estão produtos "não-tóxicos" (e sabemos que qualquer produto em excesso pode intoxicar uma pessoa); produtos "livre de químicos" (o que é impossível, porque todos os insumos de todos os produtos têm elementos químicos em sua composição); "100% natural" (urânio, arsênico e outros venenos também são "naturais"); "ambientalmente produzido", "verde", "conscientemente ecológico", todas promessas 100% vagas. E estamos falando de embalagens - imagine aqui no Brasil as promessas vagas que vemos diariamente na propaganda...
Pecado da irrelevância
Pecado encontrado em 4% dos produtos pesquisados, caracteriza-se por destacar um benefício que pode ser verdadeiro, mas não é relevante. A mais irrelevante das promessas foi a relacionada ao CFC, banido do mercado norte-americano nos anos 70: inseticidas, lubrificantes, espumas de barba, limpadores de janelas e desinfetantes, por exemplo, todos livres de CFC. A promessa é irrelevante porque, se não fossem livres de CFC, estes produtos não teriam licença para estar à venda no mercado...
Pecado da mentira
Encontrado em 1% dos produtos, é simplesmente uma mentira deslavada.
Pecado dos dois demônios
Encontrado em 1% dos produtos, são benefícios verdadeiros, mas aplicados em produtos cuja categoria inteira tem sua existência questionada, como cigarros orgânicos, inseticidas ou herbicidas orgânicos.
E o greenwashing tupiniquim?
Este tipo de pesquisa de análise de promessas de sustentabilidade socioambiental nas embalagens dos produtos infelizmente ainda não foi feita no Brasil. Na verdade, nem sequer temos condições de avaliar o greenwashing na propaganda comercial ou na cobertura jornalística - territórios ainda sem metodologias para fazê-lo.
Como um exercício de foro íntimo, podemos fazer algumas reflexões:
- Quando será que o CONAR, que retirou a publicidade da Petrobras (Nota do moderador: publicado aqui) do ar porque se dizia uma "empresa sustentável" mas não tomava medidas para cumprir o acordo do PROCONVE, vai adotar legislação sobre o greenwashing em embalagens de produtos?
- Você conhece alguma promessa publicitária "vazia" feita por grande anunciante que fala mais do que faz - digamos assim, um grande clássico do greenwashing publicitário?
- Você considera eticamente correto uma empresa investir "x" em um projeto socioambiental e investir até 3 vezes mais do que este valor para comunicar este fato? Isto pode ser considerado greenwashing?
- Os critérios de conceituação e definição de greenwashing devem ser uma iniciativa do Estado (regulamentação oficial), do mercado (regulamentação da iniciativa privada) ou da sociedade (regulamentação pela preferência de compra)?
*Rogerio Ruschel é diretor da Ruschel & Associados Marketing Ecológico e editor da revista eletrônica Business do Bem, onde este artigo foi publicado originalmente.
enviada por Editor
16/05/2008 14:57
88% dos brasileiros são contra fumo em locais fechados
Maior rejeição ocorre em restaurantes, depois em lanchonetes e casas noturnas
Por
Cinthia Rodrigues
Colaboração para a Folha
Uma pesquisa feita pelo Instituto Datafolha para a organização não-governamental ACT (Aliança de Controle do Tabagismo) mostra que 88% dos brasileiros são contra o fumo em locais coletivos fechados. No ano passado, a mesma pesquisa foi realizada apenas no Estado de São Paulo e a proporção foi idêntica.
Desta vez, foram ouvidas 1.992 pessoas em 150 municípios. Entre elas, 23% se declararam fumantes. Do total, 6% foram parcialmente contra e 82% totalmente contra.
Para a ONG, quando o local é fechado, mesmo com área separada para fumantes, há prejuízo para os demais clientes e para os funcionários. "É questão de saúde pública e também ocupacional", diz a vice-diretora da ACT, Mônica Andreis.
A pesquisa mostrou que a maior rejeição ao fumo ocorre em restaurantes (89%), depois em lanchonetes (86%), casas noturnas (72%) e bares (71%). Nesse ponto apareceu a maior diferença entre a pesquisa nacional e a entre paulistas. Em São Paulo, a porcentagem contra o fumo em restaurantes é igual, mas em bares e casas noturnas cai para 59% e 58%.
"Achamos o resultado nacional muito bom porque mostrou que, assim como São Paulo, o país todo tem a percepção de que o fumante passivo é prejudicado", diz a vice-diretora. "Esperamos com isso tanto o aumento na fiscalização da lei que já existe quanto o aperfeiçoamento dela."
Os pesquisadores também perguntaram aos entrevistados se eles mudariam a freqüência a locais fechados caso o fumo fosse proibido. Em restaurantes, 63% disseram que não mudariam, 9% iriam menos e 28% mais. Em bares, 64% disseram que manteriam a freqüência, 15% iriam menos e 21% mais.
Clientes satisfeitos
O diretor-jurídico da Abrasel (associação de bares e restaurantes), Percival Maricato, disse discordar do resultado da pesquisa. "Se o cliente estivesse insatisfeito com a fumaça do cigarro, o dono seria o primeiro a mudar isso", diz ele.
Maricato defende que, em lugares como São Paulo, onde há cerca de 50 mil estabelecimentos do gênero, é possível dar a opção ao cliente.
"Alguns lugares podem proibir, põe uma placa e pronto. Mas tem gente que fuma ou namora fumante, tem amigos e quer uma opção onde seja permitido."
*Reportagem publicada no jornal Folha de S. Paulo em 15/05/08.
enviada por Editor
22/04/2008 12:38
Caso Isabella, interesse público ou do público?
Por Lilia Diniz
A cobertura da imprensa sobre a morte da menina Isabella Nardoni, ocorrida em São Paulo, em 29 de março, foi o tema do Observatório da Imprensa exibido na terça-feira (15/4) pela TV Brasil e pela TV Cultura. Mais de 15 dias após o assassinato o caso ainda não foi solucionado, mas os meios de comunicação esmiuçaram a vida dos principais investigados o pai da menina, Alexandre Nardoni e a madrasta, Anna Carolina Jatobá. O convidado do estúdio do Rio de Janeiro foi o jornalista Guilherme Fiúza. Em São Paulo, participaram o jornalista Marcelo Rezende e o advogado criminalista Carlos Kauffmann.
** Guilherme Fiúza, jornalista, assina um blog no site da revista Época, é autor do livro Meu nome não é Johnny, trabalhou no Jornal do Brasil, O Globo e no site NoMínimo.
** Carlos Kauffmann é advogado criminalista, mestre e doutorando em Direito Processual Penal, professor de Direito Processual Penal e autor do livro Prisão temporária.
** Marcelo Rezende, jornalista, é âncora do RedeTV! News, trabalhou em vários veículos do Sistema Globo de Comunicação e da Editora Abril. Na TV Globo, comandou o programa policial Linha Direta.
Na abertura do programa, Alberto Dines comentou os assuntos que estiveram em destaque na semana. No cenário brasileiro, confissão do jogador Adriano de ter marcado um gol com a mão depois de a mídia registrar a irregularidade; na Argentina, a criação de um Observatório de los Medios de Comunicación pela presidente Cristina Kirchner; e, também sobre o país vizinho, a tentativa de punir os criadores do desenho animado Os Simpsons por críticas ao peronismo (ver abaixo os tópicos de "A mídia na semana").
No editoral apresentado antes do debate ao vivo, Dines comparou a cobertura do caso de Isabella Nardoni a uma telenovela policial. A intensa cobertura dos meios de comunicação estaria transformando o país em um "fórum de Sherlocks Holmes". O jornalista avalia que e mídia está esquecendo de uma de suas funções, que é provocar a reflexão: "Ninguém quer pensar, prefere-se acusar, julgar e encerrar o assunto. Mas o interesse da sociedade é fazer justiça. Fazer justiça é uma das maneiras de encerrar este ciclo de crueldade pelo qual pouca gente está realmente se importando" (ver íntegra abaixo).
Os holofotes da mídia
O jornalista Alexandre Garcia, da TV Globo, acredita que a cobertura da imprensa sobre o caso Isabella pode determinar o resultado das investigações. "A própria quantidade de câmeras, microfones, de repórteres, de luzes de certa forma provoca uma excitação que influencia o promotor, os peritos, os policiais, a delegada, as testemunhas e isso pode alterar um pouco os fatos", disse, em entrevista gravada. Garcia recordou uma regra da rede de TV americana CBS, que aprendeu no início da carreira, que dizia que se o jornalista perceber que a sua presença está alterando os fatos, deve retirar-se.
A cobertura do caso da Escola Base foi relembrada no programa. Em 1994, o casal de proprietários da instituição de ensino, além de um professor e um casal de pais, foram acusados de abuso sexual de crianças. A mídia cobriu exaustivamente o assunto, parte dela prejulgando os investigados, mas o processo foi arquivado por falta de provas. Para o gerente de Jornalismo da TV Brasil em São Paulo, Florestan Fernandes Jr., a imprensa tentou ser mais cuidadosa no caso Isabella Nardoni, mas houve deslizes. Para o jornalista, em um caso que causa comoção há interesse em vender mais jornais e aumentar a audiências das TVs, não só no Brasil como no restante do mundo.
Alexandre Garcia disse ter ficado com um "pé atrás" depois do "fiasco" da cobertura da Escola Base, quando se culpou o casal de proprietários. A presença ostensiva da imprensa acabaria por provocar a tentação dos 15 minutos de fama em pessoas que dão declarações na cobertura. Para o antropólogo Roberto Albergaria, a mídia trata o caso como se estivesse elaborando uma novela ao misturar ficção e realidade. Albergaria também comparou a cobertura ao reality show Big Brother, onde os participantes são vigiados 24 horas por dia. O antropólogo destacou a vontade do espectador médio de ter uma "família feliz", mas sem observar os defeitos que ocorrem dentro delas e observou que o caso chamaria mais a atenção dos meios de comunicação e da sociedade porque envolve uma criança branca.
Jornalismo como entretenimento
No debate ao vivo, o jornalista Guilherme Fiúza que viveu uma situação semelhante quando seu filho pequeno morreu ao cair do colo da mãe, na varanda do apartamento onde moravam analisou o comportamento da imprensa. Disse que é difícil avaliar a atuação da imprensa em bloco, existem atitudes diferenciadas dentro da instituição. O jornalista disse que é preciso escapar da tentação de santificar o ideal de imprensa. A mídia não seria apenas objetividade e informação, seria preciso aceitar que ela sempre terá um pouco de espetáculo e entretenimento. Fiúza afirmou que a opinião pública às vezes deseja levar a imprensa a uma abordagem que se desloca do foco da tragédia, transformando o assunto em um reality show. Para o jornalista, existe quem queira consumir o espetáculo e induza a mídia a este tipo de comportamento.
As autoridades prejulgam os acusados, na opinião de Marcelo Rezende, ao darem declarações irresponsáveis à imprensa. O jornalista rememorou a cronologia da cobertura do fato e criticou as autoridades que divulgaram percentuais de quanto o caso estaria resolvido. Rezende reprovou a atitude da delegada Maria José Figueiredo, que chamou o pai de Isabella de "assassino" no dia seguinte à morte da menina, quando Alexandre Nardoni registrou o boletim de ocorrência. Para ele, se a delegada tinha provas suficientes para acusá-lo, deveria tê-lo prendido em flagrante. Outro ponto levantado por Rezende foi o fato de que enquanto o inquérito estava sob sigilo, a todo instante autoridades passavam informações à imprensa.
O sigilo serviria, conforme explicou Carlos Kauffmann, para resguardar a própria investigação policial. Se a discussão pública acerca dos fatos pode prejudicar a investigação, então deveria ser assegurado o sigilo. O advogado criminalista avalia que o princípio não foi respeitado de fato, e foi assegurado apenas no âmbito formal. Para ele, aspectos da investigação foram trazidos a público aos poucos, e de forma paralela, por pessoas que nem sempre estavam diretamente envolvidas com as investigações. Laudos não entregues às autoridades foram vazados para a imprensa, deformando a opinião pública. Kauffmann advertiu que as pessoas que passaram informações precipitadas à imprensa tentarão provar que estavam corretas. Para o advogado, em tese, uma investigação que tenta provar que determinado suspeito é culpado está condenada ao insucesso.
Guilherme Fiúza contou que menos de duas horas após a morte do filho ele e a mãe da criança estavam presos no próprio apartamento, levados à condição de suspeitos, com dois policiais armados fechando a saída. Depois de um logo tempo, o acidente foi esclarecido. O embasamento dos "homens da lei" era o depoimento fantasioso de vizinhos que diziam ter escutado discussões entre o casal na noite anterior à manhã do acidente. Traçando um paralelo entre a sua experiência pessoal e a morte de Isabella Nardoni, o jornalista se disse impressionado com o primeiro momento, quando a opinião pública não sabe nada sobre aquela família e acha que pode julgar. Para Fiúza, "um vizinho diligente e um delegado falastrão são uma combinação explosiva". Marcelo Rezende disse testemunhas são "prostitutas das provas, não valem nada".
O papel da imprensa nas investigações
A primeira vez em que a mãe de Isabella foi depor chamou a atenção de Fiúza. A jovem quase foi derrubada pelo cerco de repórteres, fotógrafos e cinegrafistas que estavam de plantão em frente à delegacia. "Se você quase derruba no chão uma mãe que acaba de perder uma filha, você tem que voltar para casa se sentindo uma ameba", criticou o jornalista.
Marcelo Rezende questionou se, em um caso como o de Isabella, um repórter que recebe uma informação de uma autoridade constituída deve se omitir ou publicar. Dines disse que a decisão pertence à cadeia de comando do jornal, que ao repórter cabe trazer a notícia. Carlos Kauffmann considerou que a sociedade precisa estar bem informada e que isso não significa que a imprensa deva repassar as informações como se fossem verdades absolutas. E a imprensa deveria questionar porque a população não tem conhecimento jurídico. Kauffmann ressaltou que a imprensa tem um papel nobre e que precisa estar atenta ao interesse público, e não ao interesse do público.
Lília Diniz publicou o texto acima no Observatório da Imprensa, em 16/04/2008
enviada por Editor
01/04/2008 15:44
Até a churrasqueira ficou verde
*
Por João Roberto da Costa
Ousado lançamento imobiliário em São Paulo nos dá uma boa idéia de como o discurso "verde" dominou rapidamente, nos últimos meses, o mundo do marketing e dos negócios. Anunciando um estilo de vida "verde total", o imóvel em questão traz uma vasta lista de diferenciais ecológicos que deixaria um ambientalista radical satisfeito: energia solar, lâmpadas econômicas, motores de alto desempenho, coleta seletiva de lixo, pomar, herbário e até churrasqueira ecológica.
Não é apenas no setor imobiliário que o discurso verde se torna empolgado e dominante. Salvar o planeta, por meio das mais diversas estratégias, táticas e formas, tornou-se o mantra de instituições financeiras, supermercados, transportadoras, postos de gasolina, academias de ginástica e até salões de beleza. Anúncios, filmes e ações de marketing das mais variadas naturezas estão por todos os cantos, em praticamente todos os setores da atividade econômica e também na área governamental.
A comunicação se adianta, assim, à prática efetiva das ações de sustentabilidade por parte das empresas e dos governos - as quais, como alertam alguns, é algo, na maioria dos casos, ainda a ser medido e comprovado. Por outro lado ainda, a indústria da comunicação parece não levar em conta a contrapartida do consumidor, uma vez que, para serem eficazes, as ações sustentáveis solicitam mudanças de atitude de amplas parcelas da população.
Tomemos mais diretamente a cobertura da mídia sobre o assunto. Uma análise a partir do monitoramento dos principais jornais, programas de TV e revistas brasileiras revela que, entre setembro e novembro de 2006, foram publicadas 68 matérias sobre "aquecimento global". Já em 2007, no mesmo período, esse número saltou para 385 matérias. Um aumento de mais de 450%. Do ponto de vista da opinião pública, tal cobertura intensiva faz com que a população tenha acesso a um grande número de informações a respeito do tema. Mais do que isso, faz com que todos o julguem como bastante importante.
É o que revela pesquisa nacional encomendada pela agência Nova S/B ao Ibope, em março de 2007: cerca de 90% dos brasileiros já ouviram falar de aquecimento global e 86% estão muito preocupados ou preocupados com o assunto. A preocupação impacta até mesmo os segmentos de menor escolaridade e menor renda. Nesse caso, cerca de 80% dos brasileiros que, no máximo, completaram a 4ª série e 80% dos brasileiros que ganham até um salário mínimo.
Outros estudos recentes detectaram o mesmo fenômeno, como a pesquisa global promovida pela emissora britânica BBC, em novembro de 2007, que entrevistou 22 mil pessoas em 21 países. O trabalho revela que 83% dos entrevistados dizem ser necessário para as pessoas em seus países "fazerem mudanças em seu modo de vida e comportamento" no sentido de reduzir a emissão de gases.
Mas, quando confrontadas com a oportunidade de efetivamente tomarem uma "ecoatitude", a situação se mostra diferente. O que ocorreu no Dia Mundial Sem Carro, por exemplo, em São Paulo? Um movimento mundial que aconteceu em 22 de setembro convidou as pessoas a deixarem os carros em casa. São Paulo, nesse dia, teve trânsito intenso, com índices elevados de poluição do ar em várias regiões da cidade e congestionamentos na manhã desse sábado.
A distância entre o discurso verde e a prática foi detectada pela pesquisa da Nova S/B Ibope citada acima: embora quatro em cada cinco brasileiros estejam preocupados ou muito preocupados com o aquecimento global e suas conseqüências, isso não se traduz numa mudança de atitude imediata. No que diz respeito ao uso de automóvel, por exemplo, 38% dos entrevistados dizem que não deixariam de usá-lo todos os dias, enquanto 29% dizem que fariam isso de vez em quando e apenas 19% dizem que estão dispostos a fazer isso com mais freqüência.
Se todo mundo quer ser verde, principalmente na área corporativa, isso indica que, pelo menos do ponto de vista do marketing, a onda ecológica pode ser mesmo um ótimo negócio. Mas talvez, além do discurso, devamos estar atentos ao que diz respeito à coerência das empresas (e também dos governos): o quanto, do que dizem e anunciam as instituições públicas e privadas, pode ser efetivamente traduzido em mudanças com impacto positivo e transparente.
Por outro lado, do ponto de vista da opinião pública, é a consistência efetiva desse e de outros temas da agenda pública na vida das pessoas que deve ser avaliada e levada cada vez mais em consideração: se há, por parte delas, uma perspectiva concreta de mudança de atitude em relação ao meio ambiente e a outros assuntos relativos à qualidade de vida em comunidade.
Talvez aí se consolide uma nova fase da "onda verde" que impacta de salões de beleza a churrasqueiras de condomínios residenciais: a da avaliação efetiva dos discursos que são feitos e os resultados práticos e mensuráveis que eles produzem no dia-a-dia das populações.
João Roberto Vieira da Costa foi chefe de gabinete da secretaria de Estado da Educação e secretário adjunto de Cultura do Estado de São Paulo. Em 1997, assumiu a chefia da assessoria de comunicação social do Ministério da Saúde; em 2001, foi nomeado secretário de Estado de comunicação de governo da Presidência da República. É sócio-diretor da agência de publicidade novaS/B (ex-SNBB).
*Artigo publicado no jornal Valor Econômico (01/04/2008)
enviada por Editor
19/03/2008 11:16
A competência da Anvisa para regulamentar a publicidade
Por
Vidal Serrano Junior e Isabella Vieira Machado Henriques
Muito se tem discutido sobre as propostas de regulamento da Anvisa Agência Nacional de Vigilância Sanitária a respeito da restrição de publicidades de bebidas alcoólicas e de cervejas para o público em geral e de bebidas com baixo teor nutricional e de alimentos não saudáveis dirigidas para crianças.
Os veículos de comunicação, as empresas e as agências publicitárias, de um modo geral, têm dito, exaustivamente, que tais publicidades, como toda e qualquer publicidade comercial, consubstanciariam manifestações do direito de informação e do direito de expressão. Por conta disso, impor restrições às manifestações publicitárias seria, em última análise, um atentado à democracia, considerando-se a necessidade de subsistência da liberdade de opinião e expressão para a existência de um sistema democrático.
Ocorre que, contrariamente a esse entendimento, a publicidade é ato puramente comercial e não manifestação do pensamento, criação, expressão e/ou informação. O termo "liberdade de expressão comercial", que vem sendo repetidamente utilizado pelos defensores e representantes do mercado publicitário, simplesmente não faz qualquer sentido. É a clara tentativa de se unir conceitos distintos na sua essência.
A publicidade, a seu turno, pode ser definida como função de venda, ou seja, de prática comercial, que se vale dos meios de comunicação social de massa para difundir benefícios e vantagens de determinado produto ou serviço, cujo consumo se pretende incentivar, perante o respectivo público consumidor, potencial ou efetivo.
E é justamente por isso que a correta ambientação da publicidade na Constituição Federal é na ordem econômica.
Não é possível considerar a publicidade como expressão de um direito fundamental da Constituição Federal, como é a livre manifestação do pensamento. Os direitos fundamentais são aqueles considerados como direitos humanos, ou seja, de proteção do ser humano, em suas diversas dimensões. Mesmo porque o ser humano é o núcleo essencial da Constituição Federal.
Por serem fundamentais, esses direitos devem ser sempre interpretados de forma a serem protegidos e garantidos. Isso quer dizer que, apesar de a Constituição Federal também disciplinar sobre a ordem econômica, a tutela das liberdades e o direito à saúde, entre outras garantias fundamentais, devem ter prioridade absoluta e ser objeto de proteção integral por parte do Estado e da sociedade.
Não há dúvidas de que, a princípio, a publicidade é lícita, faz parte da livre iniciativa e da livre concorrência princípios básicos da ordem econômica , porém, quando for contrária às garantias e aos direitos fundamentais previstos na Constituição Federal tais como, direito à saúde, direito à educação, direito à informação adequada, direito à proteção integral da infância, direito à prioridade absoluta da infância e da juventude deve ser repudiada.
Toda e qualquer publicidade que incite seus destinatários a um consumo inadequado para a sua saúde, como é o caso das publicidades de bebidas alcoólicas, cervejas, bebidas com baixo teor nutricional e alimentos com alto teor de sódio, açúcar e gorduras, será considerada inconstitucional sem que isso signifique 'censura' ou qualquer outra forma de atentado ao Estado de direito democrático.
Mas não é só. Os defensores do mercado publicitário, além de suscitarem a suposta violação à liberdade constitucional de manifestação e expressão do pensamento, também tentam barrar as novas propostas de regulamento técnico da Anvisa mediante o argumento de que haveria violação do disposto constitucional que prevê a competência privativa da União para legislar a respeito da propaganda comercial.
Entendem, assim, que, qualquer limitação à atuação do mercado publicitário, além de constituir-se violação aos direitos e garantias fundamentais, somente poderia ser implementada por lei federal vinda do Poder Legislativo, mas nunca por uma agência regulatória do Poder Executivo.
No entanto, também com relação a esse argumento, sem razão o mercado publicitário e seus defensores. De fato, não se faz necessária a elaboração de novas normas pelo Poder Legislativo para regular a matéria, posto que já existe legislação federal que regulamenta a publicidade no país.
O Código de Defesa do Consumidor, Lei nº 8.078/90, com efeito, possui dispositivos específicos que regulamentam a publicidade e prevêem a proteção do consumidor que a ela está exposto, ressalvando-se, a propósito, que será considerado consumidor, para os fins dessa lei federal, qualquer pessoa que tiver sido exposta à mensagem publicitária, ainda que não tenha adquirido o produto e/ou serviço anunciado.
Por meio do Código de Defesa do Consumidor foi instituído o princípio da veracidade, pelo qual a publicidade tem obrigação de informar adequadamente o consumidor, sendo enganosa a publicidade que o induz a erro, ainda que por omissão de informação essencial.
Também definiu que será abusiva a publicidade considerada antiética e/ou for contrária aos valores da sociedade. E dentre os exemplos de abusividade que o Código de Defesa do Consumidor enumerou está a publicidade que se vale da deficiência de julgamento e experiência da criança e do adolescente, assim como a publicidade que induz o consumidor a se comportar de maneira prejudicial à sua saúde.
Assim, pela compreensão do texto constitucional e da norma federal mencionada, pode-se concluir que todas as publicidades que se pretende sejam expurgadas por meio dos novos regulamentos técnicos que a Anvisa quer implementar já são consideradas inconstitucionais e ilegais.
Aliás, fazer ou promover publicidade enganosa e/ou publicidade abusiva é conduta tipificada, nos termos do próprio Código de Defesa do Consumidor, como crime e passível de ser punida com pena de detenção.
Por tudo isso, é bem certo que a Anvisa está apenas e tão somente trabalhando para dar efetividade às normas constitucionais e legais. Efetividade tal que deriva da intensidade com que a norma jurídica é observada na realidade social.
A esse respeito, vale ser lembrado que a Anvisa é um órgão que tem como missão "proteger e promover a saúde da população garantindo a segurança sanitária de produtos e serviços e participando da construção de seu acesso". Sua maior finalidade é promover o bem-estar social no país.
Sua atribuição para criar regulamentos, controlar e fiscalizar a publicidade de produtos sob o regime da vigilância sanitária é decorrente da Lei nº 9.782/99, que define o Sistema Nacional de Vigilância Sanitária, norma essa em absoluta consonância com os dispositivos constitucionais e as normas infraconstitucionais que tratam dos direitos do consumidor, da criança e do adolescente e do sistema nacional de segurança alimentar e nutricional.
Como no Brasil não há uma alta autoridade para regular a comunicação, contrariamente ao que ocorre em outros países democráticos, assim como a velocidade das mensagens publicitárias é tamanha, atualmente, constata-se, na prática, a absoluta falta de aplicação do que está na lei.
Os regulamentos técnicos da Anvisa que se quer fazer valer são, pois, plenamente legais e funcionais, na medida em que a Constituição Federal e a legislação pátria infraconstitucional são extremamente protetivas. A grande virtude desses regulamentos é vir a transformarem-se em instrumentos importantíssimos de efetividade, que comprometerão um conjunto de agentes públicos com a aplicação da lei, bem como propiciarão uma maior mobilização da sociedade civil em torno do tema e em busca da efetivação do que já existe em termos legais.
E mais. A importância dessa questão, por tudo o que foi dito, diz respeito à preservação dos direitos e garantias fundamentais no país. A regulamentação da publicidade é tão cara ao ordenamento porquanto além de vender produtos e serviços tem impacto cultural, forma valores e referências sociais.
Ora, o elemento essencial da publicidade é a persuasão. E, justamente, em razão do seu intuito puramente comercial a mensagem publicitária é elaborada para atingir o emocional daquele a quem se dirige, na medida em que é notório que o convencimento acontece de forma muito mais bem sucedida quando o público consumidor alvo da mensagem publicitária é guiado pela emoção e não pela razão.
E quando se fala da publicidade que atinge o público infanto-juvenil todas essas questões tornam-se ainda mais sérias. Por isso a publicidade que anuncia bebidas de baixo teor nutricional e alimentos com alto teor de sódio, açúcar, gordura saturada e gordura trans para crianças, fomentando a obesidade infantil e a desnutrição, não pode ser tolerada.
Nos termos da Constituição Federal, é dever não só da família, mas também da sociedade e do Estado assegurar à criança, com absoluta prioridade, o direito à saúde, à alimentação, à educação, à cultura, à dignidade, ao respeito, dentre outros direitos enumerados pela Carta Magna. Além disso, é igualmente dever de tais instituições colocar as crianças e os adolescentes a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.
No mesmo sentido, o Estatuto da Criança e do Adolescente estabelece os direitos dessas pessoas em desenvolvimento e a necessidade de respeito à sua integridade, inclusive com relação à sua saúde e aos seus valores.
A Constituição Federal estabelece, ainda, que a saúde é um direito de todos e dever do Estado, o qual deverá garantir por meio de políticas sociais e econômicas a redução do risco de doença e de outros agravos.
A propósito, vale mencionar que o Brasil hoje tem 48,8 milhões de pessoas com idade até 14 anos (IBGE, PNAD, 2005). As crianças brasileiras possuem, em média, R$28,60 de mesada, o que, no universo mencionado, significa R$69.237.069,00, a cada mês sendo que o mercado infantil, no ano de 2004, movimentou R$5 bilhões com consumo de fast food3 e em 2006 o mercado publicitário infantil investiu, só em produtos infantis, R$209,7milhões (dados da Nickelodeon Business Solution Research, ano 2007 pesquisa intitulada 10 Segredos para falar com as crianças).
E o mais grave, em recente pesquisa, ao serem perguntadas em que mais gastam seu dinheiro, as guloseimas foram citadas por 73% das crianças entrevistadas, os salgadinhos por 47%, os sorvetes por 44%, as bebidas por 29%, ou seja, alimentos e bebidas possuem muito mais apelo até mesmo do que brinquedos e roupas (Pesquisa CN.com.Br citando Estudo Kiddos, 2004, 2005/2006, Brasil, Crianças 6 a 11 anos).
Esses dados são ainda mais assustadores se for lembrado que no Brasil 30% das crianças estão com sobrepeso e aproximadamente 15% já são consideradas obesas (leia mais
aqui).
Da mesma forma, também a publicidade que incentiva o consumo de bebidas alcoólicas e de cervejas é tão danosa à sociedade.
Se a publicidade não aumentasse o consumo, não seria tão necessária ao mercado publicitário milionário dos grandes fabricantes, distribuidores e/ou representantes nacionais.
A alegação de que o que falta no país é educação e, portanto, novas regras de restrição à publicidade não seriam a solução, é parte do discurso daqueles que não querem ver o desenvolvimento da sociedade brasileira. A publicidade de bebidas alcoólicas e de cervejas tem como objetivo vender, persuadir e aumentar o consumo desses produtos.
Obviamente não se pede que a publicidade eduque o que seria ótimo, diga-se de passagem mas tem a obrigação legal de não atacar valores da sociedade e de não promover a deseducação, principalmente de crianças e adolescentes.
O consumo de álcool é hoje um dos mais graves problemas de saúde e segurança pública no Brasil: (i) é responsável por mais de 10% de todos os casos de adoecimento e morte; (ii) provoca 60% dos acidentes de trânsito; (iii) é detectado em 70% dos laudos cadavéricos de mortes violentas; (iv) transforma 18 milhões de brasileiros em dependentes; (v) leva 65% dos estudantes de 1º e 2º graus à ingestão precoce, sendo que a metade deles começa a beber entre 10 e 12 anos; (vi) está ligado ao abandono de crianças, aos homicídios, à delinqüência, à violência doméstica, aos abusos sexuais, a acidentes e mortes prematuras; (vii) causa intoxicações agudas, coma alcoólico, pancreatite, cirrose hepática, câncer em vários órgãos, hipertensão arterial, doenças do coração, acidentes vascular cerebral, má formação do feto, doenças sexualmente transmissíveis, aids e gravidez indesejada; e (viii) impõe prejuízos incalculáveis, atendimentos em prontos-socorros, internações psiquiátricas, faltas no trabalho, além dos custos humanos com a diminuição da qualidade de vida dos usuários e de seus familiares (leia mais
aqui).
Daí porque a regulação da publicidade comercial e do mercado publicitário é absolutamente compatível com o estado de direito democrático. Aliás, é imprescindível para que sejam assegurados os direitos de todos os consumidores, considerados, por lei, a parte vulnerável nas relações de consumo. Principalmente quando se fala na publicidade que afeta o emocional do público infanto-juvenil, que mais do que vulnerável é naturalmente hipossuficiente.
Vidal Serrano Junior é Promotor de justiça do Ministério Público de São Paulo, professor titular de direito constitucional da PUC/SP e membro do conselho diretor do Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor).
Isabella Vieira Machado Henriques é advogada, mestre em direito das relações sociais - direitos difusos e coletivos - pela PUC/SP, e coordenadora do projeto Criança e Consumo do Instituto Alana.
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10/03/2008 16:06
O Globo: para ativistas, impunidade estimula a tortura
O Globo Online
SÃO PAULO - A constatação de que um em cada quatro brasileiros admite a tortura contra suspeitos de praticar um crime é o resultado de uma série de fatores que estimulam esse tipo de prática no país. O dado foi revelado por pesquisa realizada pela agência Nova S/B em parceria com o Ibope e divulgada pelo GLOBO no domingo . Ativistas em direitos humanos avaliaram o resultado do levantamento em matéria publicada nesta segunda-feira no Globo. Na opinião deles, contribuem para isso o clima de impunidade e a falta de credibilidade nas mais diferentes instituições, além do trabalho inquisitorial das policiais, que, segundo eles, sobrepõe estratégias de inteligência capazes de ajudar na elucidação dos casos.
- O raciocínio é o de que, para se proteger do perigo, o jeito é se antecipar a ele. Aí que é entra a tortura, que virou um ritual no país. As pessoas não reconhecem no outro um ser humano igual a ele - avalia a presidente do grupo Tortura Nunca Mais, Rose Nogueira. - O único desejo é o da punição e da vingança, e isso acontece porque as escolas também não preparam as crianças para uma educação humanista - diz Rose.
Em relação à tortura, o lado emocional tem feito com que os brasileiros dêem margem para que esse tipo de ação seja aplicada mesmo sem julgamento.
- A tortura tem a aclamação da sociedade, que, nesses casos, age com a emoção. Principalmente quando o torturado não tem relação com a sua família. Caso contrário, aí sim, ele é contra a tortura, e defende os direitos humanos, o que é uma grande incongruência - analisa o advogado Ariel de Castro Alves, coordenador-geral da Ação dos Cristãos para a Abolição da Tortura, com sede na França.
*Publicada em 10/03/2008 às 01h51m
enviada por Editor
10/03/2008 16:02
O Globo: Identidade brasileira
O Globo Online
RIO - Uma pesquisa sobre valores do brasileiro, realizada pela agência Nova S/B em parceria com o Ibope, mostra que um em cada quatro (ou 26% do total ) admite a tortura. Eles dizem que, se fossem um policial combatendo o crime, torturariam suspeitos. A pesquisa revela ainda preconceitos de raça e orientação sexual: 33% disseram que se afastariam de um amigo se descobrissem que ele é homossexual. Questionado ainda sobre temas como meio ambiente e trânsito, o brasileiro se define como um cidadão progressista, mas diz que o Brasil é um país conservador, mostra reportagem do jornal "O Globo" na edição deste domingo. A pesquisa também revela a incongruência entre a teoria - aquilo em que o brasileiro diz acreditar e seu comportamento na prática. Leia a íntegra no Globo Digital, clicando aqui (só para assinantes).
Vítima de acidente alerta que beber pouco ainda é beber
Do total de entrevistados pela pesquisa Nova S/B - Ibope, 78% afirmam que não bebem quando dirigem, enquanto apenas 19% admitem beber. Rita de Cássia Lucas Miguel, de 38 anos, poderia estar no primeiro grupo. Antes do acidente que a deixou 45 dias em coma, beber "um ou dois chopes" era como não beber. Hoje, sabe que as latas de cerveja foram suficientes para fazê-la perder o controle de sua moto. Naquele 6 de maio de 1995, ela repetiu a rotina de beber "socialmente", na saída do trabalho, no Humaitá, Zona Sul do Rio. Levava um amigo de carona, para Realengo, na Zona Oeste, quando decidiu comprar latinhas e consumir enquanto pilotava a moto. Passou por uma blitz foi liberada, depois de apresentar os documentos. Pouco adiante, sem controle, a moto explodiu. Em seis meses, fez 22 cirurgias para reconstruir a pele do abdome, das pernas e do braço esquerdo. (Veja aqui depoimento de Rita em vídeo e opiniões do povo na rua sobre bebida e direção).
Diferença de classes marca posição sobre tortura
A diferença de classe social marca fortemente a posição dos brasileiros em relação ao uso de tortura para obter informações de suspeitos. Enquanto entre as pessoas com renda superior a cinco salários mínimos o índice chega a 42% de aprovação, entre os que ganham até um salário mínimo, o percentual não passa de 19%. Entre os que têm curso superior, o índice é alto: 40%, de acordo com os dados da pesquisa Nova S/B - Ibope. No geral da população, 26% aprovam a tortura.
Para o secretário Especial de Direitos Humanos da Presidência da República, Paulo Vannuchi, o resultado da pesquisa não foi dos piores. Ele disse que temia percentuais maiores em consultas à população sobre temas como uso de tortura como método de investigação. Vannuchi afirmou que o resultado mostra que as pessoas consideram ser mais politicamente corretas do que realmente são no dia-a-dia.
- Confesso meu temor que encontraria número maior de pessoas admitindo a hipótese do uso da tortura na investigação policial. Os 26% detectados pela pesquisa são preocupantes, sim. O ideal é que seja 0%. Mas o resultado não deixa de ser tranquilizador para nós que atuamos na ponta dos direitos humanos - disse Paulo Vannuchi.
*Matéria publicada no dia 09/03/2008
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07/02/2008 15:04
Ética e propaganda
Por Gilberto Dupas
Na ordem econômica atual, que tem garantido vitalidade à lógica da acumulação capitalista, a função da propaganda é criar continuamente novos objetos de desejo. Sendo assim, faz sentido cobrar ética da propaganda?
Vamos examinar exemplos concretos. O mais recente confronto entre privacidade e propaganda envolve alguns provedores de internet, agora incluindo serviço telefônico gratuito, que exigem o direito de invadir em tempo real todo o conteúdo da comunicação com anúncios de produtos e serviços que têm a ver com o assunto da interlocução. Ou seja, joga-se no lixo o sigilo da comunicação em troca de propaganda.
Eis a justificativa de uma das empresas líderes do ramo: "Nós percebemos que, enquanto falam ao telefone, as pessoas fazem alguma coisa a mais. Decidimos usar isso". E arremata: "Trocar mais personalização com menos privacidade é um conceito aceito no mundo atual". Quanto à violação do sigilo, diz: "Não estamos fazendo nada mais que aquilo que grandes provedores fazem com e-mails".
Um executivo de uma das maiores agências de propaganda do mundo diz: "Reconheço que estamos ficando mais intrusivos a cada avanço tecnológico. Mas adoraria poder pôr minhas mãos nos dados de conversas".
O sistema está pronto para ser implantado em telefones celulares. Outro exemplo é a recente propaganda de lançamento de veículo relacionando acessórios sofisticados que o acompanham. O último da lista: "Loira siliconada no banco de passageiro". E a provocação: "Não quer mais nada não, né?".
Outra montadora, em amplas páginas coloridas de revistas e jornais de grande circulação, mostra uma mansão protegida por bela vegetação. Nas páginas duplas seguintes, ela foi destruída por uma tesoura de jardineiro e o buraco exibe o novo modelo de um utilitário de luxo com a legenda: "Você vai fazer tudo para exibir o seu!". Valores? Loira siliconada e destruição da natureza.
Mais outro. Grande banco exibe enorme anúncio em que aparece uma linda menininha de dois anos. Ela acaba de rabiscar uma nobre parede de madeira com desenhos infantis e a logomarca da empresa. Mensagem: "Você sabe do que vai precisar amanhã? Fique tranqüilo. Nosso banco já está pensando nisso hoje". Valores? Um clientezinho seduzido.
Finalmente, uma das líderes globais em produtos de superluxo publica, em páginas inteiras nas principais revistas e jornais do mundo, enorme propaganda com Mikhail Gorbatchov, o controvertido líder que apressou a queda do império soviético, sentado no banco de trás de uma limusine, que tem ao fundo o muro de Berlim. Ao lado de Gorbatchov, uma elegantíssima sacola de viagem da grife. A imagem é feita pela famosa Annie Leibovitz.
Entrevistado, um dos donos da marca, que pediu fotos semelhantes com Catherine Deneuve e outros famosos, explica: "Foi uma escolha natural. Queríamos uma personalidade que viveu uma vida plena e mudou as coisas no mundo". "Ficamos espantados quando Gorbartchov aceitou fazê-la com tanta satisfação", arrematou. E concluiu, candidamente: "Todos aspiramos a algo melhor. Alguns podem se oferecer isso já; outros, não podendo obtê-lo agora, vão sonhar com isso e conseguir realizar seu desejo mais cedo ou mais tarde".
Desnecessário dizer mais qualquer coisa sobre a propaganda como construção de objetos de desejo. Essa mesma grife havia colocado, meses antes, imenso outdoor com foto de sua mala de viagem cobrindo toda uma fachada em Xangai. Um fotógrafo clicou-a enquanto um chinês muito pobre passava carregando nos ombros, qual canga de boi, duas pesadas latas d'água.
Estamos destruindo um esquema de valores que, bem ou mal, punha algum limite entre o interesse público e a ganância privada. Para onde caminhamos? Uma pista é um novo lançamento residencial no distrito financeiro de Manhattan. As paredes do edifício, todas de vidro, permitem que seus moradores se vejam na intimidade e sejam vistos, eventualmente sem restrição, por pessoas da rua; inclusive no banheiro, um cubo de vidro.
A propaganda, na voz do arquiteto: "Estamos criando palcos para as pessoas de certa maneira atuarem". Para Sherry Turkle, do MIT, quando levantamos os olhos das telas de plasma dos computadores, só encontramos solidão. Trata-se, no caso, de um desejo desesperado de intimidade que a propaganda manipula, confundindo exibicionismo com aproximação. Enfim, ética supõe valores. Quais são os valores da propaganda?
*
Gilberto Dupas é coordenador geral do Grupo de Conjuntura Internacional da USP, presidente do Instituto de Estudos Econômicos e Internacionais (IEEI) e autor de, entre outras obras, "O Mito do Progresso". Este artigo foi publicado na edição do dia 28/01/2008 pelo jornal Folha de S.Paulo.
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11/01/2008 15:40
Uma agenda de interesse da sociedade para 2008
Por Marcus Flora
O Presidente da ANEEL, veio a público sugerir a realização da uma campanha incentivando o consumo moderado de energia face às suas expectativas de que um novo racionamento de energia não está descartado.
Casos de morte ou contaminação pela febre amarela assombram milhares de pessoas que correm aos postos de saúde no centro-oeste e em outras regiões.
35 mil pessoas morreram em acidentes de trânsito, nas estradas e cidades durante o ano de 2007, segundo as estatísticas oficiais. Muitos por excesso de velocidade, alcoolismo, imprudência e outras flagrantes desobediências às legislação.
Enfim, poderia descrever inúmeros outros temas onde o interesse público está manifesto em relação direta com a necessidade de informar e de comunicar.
Temas que não dizem respeito apenas ao poder público federal, estadual e municipal, mas, também aos outros atores que se relacionam com eles, como as grandes indústrias consumidoras de energia, as montadoras, as construtoras de estradas, a industria de bebidas e claro, o cidadão que consome, que tem seus direitos e deveres.
A cada dia, portanto, estamos diante de uma infinidade de temas que a maioria dos encarregados da comunicação de governos, de empresas, de ONGs e sindicatos, acreditam não fazer parte do universo de preocupação do seu público. Mas há com certeza alguns que compreendem diferente. Compreendem que há uma agenda na sociedade que preocupa e mobiliza cada vez mais gente. Que a facilidade com que a informação e a comunicação circulam nos tempos atuais, tornou antenada uma parcela cada vez maior da opinião pública, que já não acha natural o descolamento entre a comunicação destes vários atores e a agenda do dia a dia da sociedade. Parcela que está crescendo. Basta ver o efeito disto nos festivais internacionais de propaganda e na crescente especialização de agências estrangeiras em torno dos temas de interesse público.
Os temas listados no começo deste artigo poderiam ensejar o engano de que esta é uma pauta governamental. Não é. É cada vez mais uma pauta de todos. Quem está percebendo isto, agrega um valor enorme aos atributos de preço e qualidade, ou eficiência, ou compromisso social, que já tem.
Os temas listados no começo do artigo permitem fazer boas campanhas de todo tipo, considerando as formas tradicionais de se comunicar. Dão boas campanhas institucionais de governo que querem mostrar o que estão fazendo nestas áreas. Dão um bom mercado para quem quer vender alguns seguros, ou carros mais seguros, ou cerveja com menos álcool, ou seja lá que produto for a pode ser consumido por alguém que usa energia elétrica, dirige ou atua na área médica.
Mas, principalmente, eles permitem (como vários outros), que se façam boas campanhas de interesse público, que ajudem as pessoas a mudar seus hábitos, melhorar suas atitudes. Onde os produtos, a marca, a prestação de contas, não estarão dissociados do interesse das pessoas, mas, ao contrário, estarão interagindo fortemente com ele. Quem encampa esta forma de fazer propaganda, com certeza está indo na mesma direção da agenda que hoje sensibiliza um número cada vez maior de pessoas. Tem futuro.
*
Marcus Flora é historiador e consultor do Blog Comunicação de Interesse Público.
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03/09/2007 14:36
Pesquisa mostra que o alcoolismo cresceu entre as mulheres
Nos últimos três anos, aumentou em 78% o número de mulheres que procuram tratamento em SP
Por natureza, a mulher é mais vulnerável ao álcool e apresenta problemas de saúde mais precocemente do que o homem
Por Cláudia Collucci *
O número de mulheres dependentes do álcool que procuram tratamento cresceu 78% nos últimos três anos no Estado de São Paulo, segundo levantamento em unidades públicas de saúde.
Ao mesmo tempo, pesquisas indicam que, em 20 anos, aumentou muito a proporção de mulheres alcoólatras no país. Era uma mulher para cada dez homens. Agora é uma para três.
Para especialistas, uma das explicações é a mesma que levou ao aumento dos problemas cardiovasculares nesse público: a mudança do estilo de vida da mulher, que a deixa sobrecarregada de trabalho e estressada.
O fenômeno preocupa por dois motivos: a) a mulher é mais vulnerável ao álcool e tem problemas mais cedo; b) a indústria de bebida tem investido em propagandas para elas.
Estudo da Secretaria Estadual da Saúde mostra que o número de mulheres dependentes nos Centros de Atenção Psicossocial passou de 17.816 (2004) para 31.674 (2006). Representam 11,8% dos atendimentos (267.582, em 2006).
Para Luiezemir Lago, do Centro de Referência de Álcool, que coordenou o estudo, o aumento se deve ao crescimento real do alcoolismo feminino e à maior oferta de serviços especializados (de 27 unidades, em 2004, para 41, em 2006).
"Havia uma demanda reprimida. Antes, a mulher era internada. Hoje, com o tratamento ambulatorial, ela se sente mais estimulada a buscar ajuda." Em 2006, o custo do tratamento ambulatorial de mulheres foi de R$ 820 mil no Estado.
As bebidas ocupam a quarta posição no ranking de internação. Em primeiro vem gravidez/parto, seguido de doenças do aparelho circulatório e das doenças respiratórias.
"A mulher ganhou bônus [maior inserção no mercado de trabalho, por exemplo], mas também teve o ônus", diz João Carlos Dias, da Sociedade Brasileira de Psiquiatria.
Ele explica que o organismo feminino metaboliza o álcool de forma diferente da dos homens e, por isso, elas sofrem mais rápido os efeitos nocivos da bebida -têm maior proporção de tecido gorduroso e um déficit de enzimas que atuam na metabolização do álcool.
Situações que desfavorecem a "diluição" da bebida no corpo.
O psiquiatra Sérgio Ramos, presidente da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas, diz que os homens levam 15 anos para ter problemas no fígado. "As mulheres, cinco." As alcoólatras também sofrem mais riscos de desenvolver doenças cardiovasculares, câncer da mama, osteoporose e distúrbios psiquiátricos, entre outros.
E não só isso. Paulina Duarte, da Secretaria Nacional Antidrogas, diz que a mulher alcoólatra, mais estigmatizada, tende a beber escondida e tarda em buscar ajuda. "Chega numa condição mais grave e com menos chances de recuperação."
Consumidoras são novo alvo da propaganda
Cerveja lançada pela Ambev, com foco específico no público feminino, tem comercial de TV exclusivo para mulheres
Pesquisa mostra que não há diferença estatística na taxa de consumo de cerveja -62% entre os homens e 58% entre as mulheres
As mulheres já bebem cerveja na mesma freqüência que os homens e se tornaram o novo alvo da indústria de bebidas, inclusive, com comerciais de TV exclusivamente para elas.
Pesquisa da Senad (Secretaria Nacional Antidrogas) e da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), divulgada semana passada, mostra que não há diferença estatística na taxa de consumo de cerveja entre os gêneros (62% entre homens e 58% entre as mulheres). O estudo ouviu 3.007 pessoas em 143 cidades brasileiras.
Entre os adolescentes, acontece a mesma tendência de consumo: 53% dos garotos declaram tomar cerveja, contra 50% das meninas.
A diferença entre os gêneros (adultos e adolescentes) ainda está na quantidade ingerida: 38% dos homens consomem cinco doses de bebida alcoólica (fermentadas ou destiladas) contra 17% das mulheres.
Mas, a depender da indústria da cerveja, esse padrão de consumo também poderá ser mudado. Uma cerveja voltada para mulheres, a Porto (Ambev), acaba de ser lançada.
No comercial de TV sobre a cerveja, a velha fórmula sexista, agora ao inverso: em um bar lotado de belas garotas bebendo cerveja, ao som de música latina, um garçom mais velho é trocado por um jovem bonitão.
Para a psicóloga Ilana Pinsky, do departamento de psiquiatria da Unifesp, o foco de propagandas de bebidas nas minorias é uma tendência nos EUA e pode se tornar uma estratégia no Brasil, um mercado com potencial de crescimento.
"No Brasil, a mulher ainda bebe muito menos do que potencialmente poderia beber. É esperto da parte das indústrias focarem nas mulheres jovens e em jovens em geral porque é esse público que pode mudar o padrão de consumo, não vai ser o cara de 40 anos."
Sérgio Ramos, da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas, tem a mesma preocupação: "Estão querendo agora ampliar o mercado em direção às mulheres jovens. E fazem propaganda enganosa. Mulher que bebe freqüentemente engorda, tem barriga, não tem a exuberância da TV".
Para Marcos Mesquita Coelho, presidente do Sindicato Nacional da Indústria da Cerveja, é natural ocorrer uma mudança no direcionamento da propaganda devido ao aumento do consumo da bebida e à participação cada vez maior das mulheres no mercado de trabalho e na renda nacional.
Segundo ele, não tem sentido uma propaganda focada apenas na motivação do homem se a mulher consome a bebida quase na mesma proporção.
"O problema dessa propaganda [da cerveja Porto] é que ela está voltada para a mulher, mas ainda usando o mesmo padrão de publicidade usado para o público masculino. Trocar esse [garçom] por outro mais bonito não me parece um padrão esperado das mulheres."
Segundo ele, as pesquisas de mercado demonstram que as mulheres cada vez mais consomem cerveja e decidem pela marca de preferência. "Nada mais adequado do que trabalhar conceitos mais presentes na decisão da mulher."
A presença de mulheres nos bares é cenário comum e não fica muito atrás da dos homens em estabelecimentos visitados pela Folha. A estudante Cristiane Paludetto, 30, afirma que começou a consumir bebidas alcóolicas aos 14 anos. "Achava que tinha graça. Tive amigas que tomaram glicose na veia". Hoje, ela diz beber menos.
Outra estudante, Paula Rodrigues, 21, diz que bebe mais que alguns amigos homens e que costuma misturar bebidas na "balada", como vodca e energético, mas que não chega a passar mal. A relação entre álcool e mulheres pode ser vista no site de relacionamentos Orkut, em grupos como "Sou Mulher e Bebo Mesmo" e "Mulheres Total Flex".
*Cláudia Colucci é repóter do jornal Folha de S. Paulo. Reportagem publicada em 03/09/2007.
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22/08/2007 11:34
Pesquisa mostra que 16% dos adolescentes bebem demais
Estudo inédito do consumo no País aponta que um terço dos brasileiros de 14 a 17 anos ingere bebida alcoólica
Por Lígia Formenti
Uma pesquisa inédita da Secretaria Nacional Antidrogas mostra que 16% dos adolescentes entre 14 e 17 anos já consumiram bebidas alcoólicas em excesso - ou seja, cinco doses ou mais ao longo de um dia. O trabalho, o mais completo sobre o consumo de álcool realizado no País, revela que 21% da população masculina nessa faixa etária bebeu de forma abusiva no ano anterior. Entre meninas a proporção foi menor, mas não menos preocupante: 11%.
Os dados comprovam ainda algo que especialistas alertam há tempos. A idade com que adolescentes iniciam o consumo de bebida está caindo e a freqüência, aumentando.
Realizado pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), o Levantamento Nacional sobre Padrões de Consumo de Álcool na População Brasileira traz um retrato de como o brasileiro se comporta com relação à bebida. Feito entre 2005 e 2006, usou como base entrevistas em mais de uma centenas de municípios em todas as regiões do País. É o primeiro trabalho dessa dimensão. Até então, os dados oficiais eram baseados somente em projeções.
BINGE
O estudo mostra que quase metade da população brasileira (48%) não bebe. Mas a legião de abstêmios não reduz a dimensão do problema: 28% dos adultos, o equivalente a 33 milhões de pessoas, apresentam um padrão de consumo excessivo. É um número muito expressivo. E indica quantas pessoas se expuseram a situações de risco ou enfrentaram problemas provocados pelo consumo de álcool em excesso, constata a secretária-adjunta da Senad, Paulina Duarte.
Além de quantificar a população que consome bebidas alcoólicas, os pesquisadores procuraram fazer uma análise da relação que as pessoas estabelecem com a bebida. Para isso, os entrevistados respondiam se, no ano anterior, haviam consumido, num pequeno espaço de tempo, grande quantidade de álcool - o que, segundo padrões internacionais, equivale a cinco doses para homens e quatro doses para mulheres ao longo de um dia. É o chamado beber em binge (algo como excesso em inglês).
Para Paulina, as conclusões vêm confirmar a importância da Política Nacional de Álcool, lançada em maio pelo governo. O trabalho pode ajudar a nortear algumas ações de prevenção e combate ao abuso.
MAIS CEDO
Sobretudo entre adolescentes. O estudo mostra que entrevistados entre 14 e 17 anos iniciaram o consumo de bebida alcoólica aos 13,9 anos. Não foi necessário ir muito longe nas gerações para encontrar uma média de início de consumo mais elevada. Entre adultos jovens, com idade entre 18 e 24, o início foi aos 15,3 anos.
Paulina afirma que o consumo cada vez mais precoce de bebidas preocupa, mas não é exclusividade do Brasil. É uma tendência mundial. Mesmo assim, existe a necessidade de aumentar os trabalhos de prevenção, completa.
Entre as ações previstas está a ênfase no aumento do diagnóstico precoce de pessoas que apresentam padrão problemático de consumo de bebida e a indicação de tratamento. Neste mês, a Unifesp acaba de treinar 5 mil profissionais de saúde, entre agentes comunitários, enfermeiros e médicos, para identificar pessoas que apresentam o problema.
A bebida passa a ter um lugar na vida dessas pessoas, interfere no relacionamento familiar, na vida profissional. Expõe a riscos, como a direção de automóvel sob efeito do álcool, explica Paulina. Para prevenção, também estão sendo capacitados professores. Cerca de 20 mil educadores estão sendo treinados também para alertar adolescentes sobre o risco do consumo excessivo da bebida.
O levantamento indica, por exemplo, que dois terços dos adultos entrevistados dirigiram depois de consumir três doses de álcool - acima do que é legalmente permitido. O estudo mostra também que padrões de consumo se modificam conforme a região e a faixa etária. Quanto mais jovem, maior o índice de relatos de beber em binge e menor a taxa de abstinência. Entre população mais velha, a abstinência cresce e o abuso de álcool se reduz.
Cerveja é a bebida mais consumida entre os que abusam
A cerveja é a bebida mais consumida entre pessoas que têm uma relação problemática com o álcool, mostra o estudo feito pela Unifesp. A bebida representa 73% das doses consumidas por pessoas que beberam em grandes quantidades. Em segundo lugar, estão os destilados, com 13% das doses, seguido pelo vinho, com 12%. Em último lugar está as bebidas ice, com 1%.
O estudo mostra também que, entre consumidores adultos, 27% bebem em bares ou locais fora de casa. Os jovens também bebem mais quando estão em bares ou em companhia de amigos. Esse comportamento varia, porém, de acordo com a região. No Sul, por exemplo, jovens bebem menos em festas ou em saídas com turmas de amigos. Eles preferem beber em festas (35%).
O trabalho mostra que 36% da população do Sul bebeu em binge, ou seja, em excesso. Na região Norte, o número cai para 21%. Pesquisadores atribuem a baixa porcentagem a uma taxa de abstinência de mais de 50%.
Outro dado é que, de 52% da população adulta que bebe, 55% disseram não ter problemas por causa da bebida. Os 45% restantes disseram ter tido pelo menos um problema. A maior freqüência de queixas foi detectada entre a população masculina. L. F.
*Lígia Formenti é repórter de O Estado de São Paulo. Notícia publicada na edição de 22/08/07.
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20/08/2007 11:13
Pesquisa nova S/B-IBOPE: violência muda rotina do brasileiro
Pesquisa mostra que três em cada quatro moradores das capitais não se sente seguro onde vive
Por Demétrio Weber e Flávio Freire*
A violência muda hábitos da maioria dos brasileiros. Andar de carro com os vidros fechados é parte da rotina de 61% da população, enquanto 58% não deixam os filhos saírem sozinhos à noite e 53% evitam caminhar nas ruas do próprio bairro depois que escurece. Outros 18% admitem encomendar comida por telefone para evitar o risco de sair de casa. É o que revela pesquisa do Ibope, realizada por telefone fixo, com 1.400 pessoas acima de 16 anos, em todo o país, entre os dias 7 e 9 de agosto.
Nas capitais, três em cada quatro moradores 76% consideram insegura a cidade onde vivem. Quase a metade 46% diz que já teve vontade de mudar de casa por causa da falta de segurança. A pesquisa foi feita para a agência Nova S/B Comunicação. A margem de erro é de três pontos percentuais.
A insegurança faz com que as pessoas limitem horários, áreas e atividades. O habitat urbano muda em função disso. As pessoas começam a viver em condomínios fechados, com seguranças, grades.
O medo da violência tem custos econômico e social muito altos, em termos de qualidade de vida diz o sociólogo Ignácio Cano, pesquisador do Laboratório de Análise da Violência da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).
Os pesquisadores pediram aos entrevistados que indicassem quais atitudes tomam para enfrentar a violência, numa uma lista de nove opções. As pesquisa constatou que 36% o percentual é o mesmo entre homens e mulheres já adotam cinco ou mais dessas atitudes, que podem ser entendidas como mudanças de hábitos.
*
Demétrio Weber e Flávio Freire são repórteres do jornal O Globo. Matéria publicada pelo jornal em 19 de agosto de 2007.
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03/08/2007 16:05
Dois terços dos que experimentam cigarro se viciam
Por Emilio SantAnna
Apesar de a venda de cigarros ser proibida para menores de 18 anos, a adolescência é a fase em que a maioria dos fumantes dá sua primeira tragada. Uma pesquisa da Santa Casa de Misericórdia do Rio e da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) revela que dois terços das pessoas que experimentam um cigarro se tornam viciadas. Outra constatação é que essa experimentação acontece, em média, com 16 anos.
A pesquisa foi realizada em todos os Estados brasileiros e ouviu mais de 3 mil pessoas com 14 anos ou mais. Ela aponta também que, após a experimentação, o uso diário do tabaco começa pouco antes dos 18 anos, em média. Ou seja, a lei não é cumprida e a prevenção do contato do adolescente com o cigarro é falha no Brasil.
Uma das autoras da pesquisa, a psiquiatra Analice Gigliotti, da Santa Casa de Misericórdia, explica que a nicotina - um dos componentes do cigarro - é a droga que mais causa dependência. Comparada com outras, ela tem um poder de vício muito maior, afirma.
Por ser uma droga socialmente aceita, assim como o álcool, o fumante acaba não percebendo seu grau de dependência. A longo prazo, no entanto, os efeitos começam a aparecer. Além de doenças vasculares e coronarianas, o cigarro é responsável por nada menos do que 90% dos casos de câncer de pulmão.
A prevalência de fumantes verificada foi de 20%, o que corresponde a 26 milhões de brasileiros. Da população estudada, 66% fumou em algum momento da vida. Na população adulta, a prevalência de fumantes é maior entre os homens. Entre adolescentes, meninos e meninas têm índices semelhantes.
CIGARRO MAIS CARO
Analice defende o aumento progressivo dos preços dos cigarros para coibir o contato dos adolescentes com o fumo. É a medida mais eficaz e de mais baixo custo para o governo.
A psiquiatra, no entanto, reconhece que apenas isso não basta. Sem uma fiscalização eficiente dos estabelecimentos que vendem cigarros e dos produtos contrabandeados - mais baratos -, a medida é ineficaz.
A primeira tragada da estudante Bruna de São Miguel, de 19 anos, foi com 11, na companhia de uma amiga. Ela não se considera dependente e desde os 16 anos fuma só nas baladas, conta. Fico sem fumar, numa boa. Mas as pessoas começam a fumar ao meu lado e eu acabo acendendo um cigarro.
O pneumologista Sérgio Ricardo Santos, coordenador do Núcleo de Apoio à Prevenção e Cessação do Tabagismo (PrevFumo), da Unifesp, explica que são três os fatores que podem levar a pessoa a fumar: condicionamento, prazer e dependência. Apesar de nem todos os fumantes serem dependentes, o vício costuma se instalar rapidamente. Essa dependência pode se instalar em semanas ou até mesmo em dias, diz Santos, que não participou do estudo.
Como ocorre com as bebidas alcoólicas, o risco de os adolescentes experimentarem o cigarro parece, em muitos casos, quase inevitável. Faz parte da essência do indivíduo nessa fase querer testar coisas que são consideradas perigosas, afirma Santos.
Apesar de o Brasil ter uma legislação considerada avançada no combate ao tabagismo, o que continua surpreendendo o médico é a idade média do contato com o primeiro cigarro. Reflexo da falta de fiscalização: Estamos em um país que proíbe a venda para menores de 18 anos, mas a maioria dos estudos mostra uma idade média muito anterior para a iniciação.
Assim como Bruna, Henrique Vital Andrade, de 24 anos, começou a fumar cedo. Tinha só 13 anos quando acendeu seu primeiro cigarro. Parou aos 16 e voltou aos 19. Agora, há pouco mais de um mês, conseguiu largar o vício novamente, mas luta contra as recaídas. Não quero mais voltar. Não vou deixar o vício falar mais alto, diz.
Emilio SantAnna é repórter do jornal O Estado de São Paulo
*Matéria publicada no jornal O Estado de São Paulo em 03/08/07
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03/08/2007 10:22
Você sabe onde pisa?
Por Maria Helena Passos
Você sabe exatamente o que possui em sua propriedade urbana ou rural? Quem achou a pergunta sem nexo, pode começar a mudar de idéia. E se aquele fio de água que escorre em seu terreno configurar um legítimo manancial? Você seria capaz de reconhecê-lo imediatamente?
Nem sempre isso é possível sem a ajuda de quem entende do riscado. E o solo que você possui pode abrigar riquezas cujo valor tem se tornado particularmente apreciado nestes dias de desastres ambientais e conscientização em alta.
Nada melhor, portanto, do que ficar atento. E prestar atenção em um projeto, astutamente batizado de Oásis, da Fundação Boticário, alimentado por US$ 400 mil doados pela Mitsubishi International Corporation Foundation.
Para onde irá esse dinheiro? Para projetos de serviços e preservação de mananciais em 80 mil hectares de terrenos situados na Região Metropolitana de São Paulo. Mais exatamente na Bacia Hidrográfica de Guarapiranga e nas áreas de Preservação Ambiental (APAs) Capivari-Monos e Bororé-Colono. Trata-se de corredores de biodiversidade entre a Reserva Florestal de Morro Grande e o Parque Estadual da Serra do Mar. Dali sai água para abastecer quase quatro milhões de pessoas.
O Oásis foi modestamente divulgado pela imprensa e a Fundação utilizou apenas a distribuição de folders em eventos sobre meio-ambiente realizados na região onde é desenvolvido o projeto para dar a conhecer essa legítima iniciativa de interesse público. Mas se a comunicação foi discreta, a idéia é tão ousada quanto inédita no Brasil. E certamente merece ser mais propalada junto à população do país.
Está funcionando assim: se você suspeitava que o seu terreno no perímetro delimitado pode abrigar um manancial, entrava em contato com a Fundação pelo endereço eletrônico do projeto ou por telefone com um dos técnicos do projeto na entidade. Se eles julgavam ser o caso, seu terreno recebia uma visita para incluí-lo como candidato à participação no projeto.
Tal prospecção se deu em maio e junho últimos, com apoio do governo paulista. Ocorre agora a seleção final, para a assinatura de contratos onde, por cinco anos os proprietários são financiados para proceder a serviços de preservação ambiental em seus terrenos. O que vem a ser isso? Tarefas que melhoram as condições de vida como a filtragem natural da água, o cuidado com os recursos da biodiversidade (genéticos, químicos e alimentares), a polinização de lavouras, o controle biológico de pragas e outros.
Um exemplo: se sua propriedade tiver 10 hectares da área natural e você tiver sido selecionado, receberá quatro mil reais por ano, ou seja 20 mil reais por todo o período. Mas terá que cumprir a risca o contrato com a Fundação, passível de rescisão tanto se o proprietário não cumprir o estipulado, como de premiação, caso ele tenha ido além e feito mais do que lhe foi exigido.
Mas, e quando os cinco anos acabarem? Bem, a Boticário estuda a possibilidade de renovar contratos. Não é para menos. A estimativa da Fundação é de proteger 2.500 hectares de áreas naturais dos 40 mil hectares cobertos por vegetação natural que há na área. Dado o contingente de seres humanos que vivem da água produzida ali...
Melhor que isso seria se outras empresas, inspiradas pela Fundação curitibana informassem ou dessem ao cidadão, nos quatro cantos do país, a possibilidade de conhecer melhor o terreno onde pisam. E estímulo para cuidar dele como se deve: como um bem público.
Maria Helena Passos é jornalista
helenawf@uol.com.br
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18/07/2007 12:20
Uma coisa é censura, outra coisa são critérios
Por Maurício Lara
Às quatro horas da manhã de um dia qualquer, no aeroporto de Ilhéus (BA), um menino de quatro anos aguardava, com a mãe, um desses vôos da madrugada. Atento a uma televisão ligada, deu trabalho à mãe que tentava afastá-lo da frente do aparelho. Em poucos minutos, ele assistiu a três cenas de violência e uma cena de sexo. As cenas não eram inusitadas para aquele horário. O inusitado era a presença da criança diante da televisão.
E se este filme passasse às quatro da tarde? A presença do menino diante da TV à tarde seria habitual, corriqueira, previsível. E por que um filme desses não passa às quatro da tarde? Porque isso seria inconveniente, ou melhor, inadmissível.
O exemplo da criança no aeroporto de Ilhéus denuncia como pode estar equivocado o encaminhamento da discussão travada atualmente sobre a proposta do governo de regulamentar as faixas de horário em relação à idade do telespectador. Ora, que atentado pode haver à liberdade de expressão quando o Ministério da Justiça se movimenta nesse sentido? O que tem a ver com censura evitar que crianças vejam programas que possam ser considerados inadequados para determinada idade? E não estamos vendo ninguém falar em proibir este ou aquele programa; o que se discute é quanto à pertinência dos horários de exibição.
O Brasil nem vivia ainda o tempo da ditadura e nem tinha televisão quando os cinemas estampavam nos cartazes a classificação etária. Na matinê, assistia-se a filme censura livre. O programa infantil era naturalmente diferente do programa noturno. O programa para criança era diferente do programa para adultos. A ditadura passou, qualquer um se arrepia quando ouve a palavra censura, mas continua não sendo sensato passar no meio da tarde o filme que o menino de quatro anos viu no aeroporto. Uma coisa é censura, outra coisa são critérios.
Nessa discussão, fala o governo, com bastante cuidado, diga-se de passagem, porque sabe que gato escaldado tem medo de água fria e que cachorro mordido de cobra tem medo de lingüiça. Logo, sabe que qualquer coisa que resvale para a censura ou repressão vai ser repudiada e com razão. Falam os representantes dos veículos de comunicação, que defendem enfaticamente o sagrado direito à liberdade de expressão e o livre arbítrio. E há até quem diga que a decisão quanto ao que a criança vê cabe aos pais, como se eles tivessem tempo e preparo para ficar avaliando o que passa na televisão. Menino fica agarrado em frente à TV enquanto os pais trabalham para garantir comida na mesa.
Mas têm falado muito pouco os pais e os educadores que, supõe-se, são as instâncias mais preparadas e mais interessadas no conteúdo do que a criança assiste. Uma coisa é censura, outra coisa é educação de criança.
Que o governo não se meta a impor regras goela abaixo da sociedade, mas que também os veículos de comunicação não pensem em submeter educação infantil às lógicas de mercado. A discussão proposta pelo governo é, no mínimo, pertinente. Uma coisa é censura, outra coisa é discernimento do que é aconselhável e do que não é. Que a censura continue banida do nosso meio, mas que ninguém se furte a discutir temas tão importantes como educação e orientação infantis.
Maurício Lara é Secretário de Comunicação da PUC Minas e sócio da Lara Agência de Comunicação e Pesquisa Ltda.
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10/07/2007 14:38
Pesquisa de interesse público é tema de O Globo
"O fator violência
Falta de segurança já é o segundo motivo para brasileiros defenderem planejamento familiar
Por Maiá Menezes
A violência que assombra o cotidiano dos brasileiros é a segunda razão para a opção pelo planejamento familiar no país. Pesquisa feita para O GLOBO pelo Ibope/Nova SB Comunicação, nos dias 19 e 20 de junho, mostra que 20% dos entrevistados apontam o clima de insegurança como o motivo para ser a favor do uso de contraceptivos. A primeira razão é a condição econômica, de acordo com 58%. O temor pela degradação ambiental também aparece entre os fatores que levam à defesa do controle da natalidade: é a preocupação de 5% dos consultados pelo Ibope.
Moradora da Vila Cruzeiro, no Complexo do Alemão, Zona Norte do Rio, Adriene Lúcia de Leme Moraes, de 31 anos, criou regras para manter Mayara, de 11 anos, Marta, de 8, Matheus, de 6, e Marcos Jorge, de 4, protegidos do cotidiano beligerante da comunidade - onde a polícia matou, em confronto, 19 pessoas, há dez dias. Sai de casa apenas quando o clima "não está agitado". Há uma ano, decidiu não ter mais filhos e recorreu a uma laqueadura de trompas, fornecida ilegalmente por um candidato a deputado.
- No lugar em que a gente mora é muito difícil criar filho. Todos os dias a gente enfrenta essa rotina de tiroteio.
Nenhum dos filhos que eu tive foi planejado. Mas não dá para ter mais. A gente deveria ter mais acesso a planejamento familiar, porque todo mundo tem o direito de escolher - diz Adriene, que não completou a 8asérie do ensino fundamental.
Laudicéia Mendes Batista, de 35 anos, moradora da favela do Grotão, diz que a violência trouxe traumas para sua vida. Com cinco filhos, entre 2 e 17 anos, ela criou um toque de recolher doméstico, que obriga todos a estarem em casa às 21h. Nessa rotina, afirma ela, não cabem mais filhos. Por isso, decidiu tentar a laqueadura, oferecida pela Secretaria Municipal de Saúde.
- É muita violência. Eu tento não passar meu medo para eles. Mas não dá para ter mais filhos - diz Laudicéia, que está desempregada.
Entre os 1.400 entrevistados, em consultas feitas por telefone, a inquietação com a violência é maior entre os menos instruídos (26% dos que cursaram até a 4ae 20% dos que foram até a 8a). Já a preocupação com a condição econômica é maior para os que têm nível de escolaridade superior (60%).
A dentista Anne Eugenia Nunes Borba, de 37 anos, desistiu da segunda gravidez ao fazer as contas. Casada com o advogado Mario Nunes Akiyama, de 31, ela diz que só engravidou pela primeira vez, de Mariana, há três anos, depois de comprar o apartamento e de conseguir dois empregos estáveis.
- Desde que ela nasceu, eu uso algum método de prevenção. A gente vive bem, tem condição de colocála numa boa creche. Mas sem extravagâncias.
O impacto de um filho no orçamento é profundo - diz Anne, que gasta cerca de R$ 1 mil por mês só com a creche. Ela mora na Tijuca, Zona Norte do Rio.
91% são a favor do planejamento
A grande maioria dos entrevistados pelo Ibope se diz a favor do planejamento familiar (91%). Apenas 6% afirmam ser contra. A pesquisa ouviu brasileiros em todo o país - a maior parte na região Sudeste (44%). A maioria tem filhos (68%) e tem vida sexual ativa (72%). Apesar do alto percentual que afirmou ter tido filhos planejados (63%), ainda é grande o índice dos que não planejaram (28%).
A demógrafa Suzana Cavenaghi, da Escola Nacional de Ciências Estatísticas do IBGE, considera alto o percentual de entrevistados que dizem ter tido filhos não planejados. Ela ressalta, no entanto, que muitos não fazem porque não têm acesso aos métodos ou à forma de usá-los adequadamente, e não por serem contra.
- Ricos e pobres já não querem mais ter muitos filhos. A violência e o meio ambiente aparecerem como um fator dessa escolha é fruto da agenda do Brasil de hoje. De fato, a escolha é tomada por uma conjunção de fatores, em que o econômico prevalece - afirma Suzana, consultora da Pesquisa Nacional Sobre Demografia e Saúde da Mulher, realizada pelo Ministério da Saúde.
O gerente de projetos do Ibope, Maurício Garcia, considera "altíssimo" o percentual de quem é a favor da contracepção.
- Ainda assim, quase um terço diz não usar método algum. O que mostra que o entrevistado pode ser a favor, apenas em tese - diz Maurício.
A dona-de-casa Alessandra Félix, de 28 anos, moradora de Santa Cruz, na Zona Oeste do Rio, conta que sempre tentou prevenir a gravidez. Mas até agora não foi bem sucedida: - Nenhum dos meus três filhos foi planejado. Eu usava o anticoncepcional, mas às vezes esquecia. Agora, não estou usando pílula, mas estou à espera da laqueadura - conta Alessandra Félix..
A pílula, segundo a pesquisa, é usada por 37% dos que disseram ter vida sexual ativa. A camisinha é apontada como preferência nacional (48% disseram usar). A "tabelinha" aparece como opção para 14% dos consultados.
Já a pílula do dia seguinte, tomada após a relação sexual como último recurso para evitar a gravidez, é a escolha de 9%. Entre os que se previnem, 33% dizem usar apenas um método.
- A melhor forma de se prevenir é usar mais de um contraceptivo. É preciso se preocupar com a prevenção à Aids. Além disso, a pílula do dia seguinte deveria ser usada como recurso excepcional, porque tem efeitos colaterais - afirma a pesquisadora Sônia Corrêa, da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (Abia).
Fiéis ignoram preceitos religiosos
Católicos, evangélicos e seguidores de outras religiões não rezam pela cartilha de igrejas quando o assunto é o planejamento familiar. Apenas 10% dos entrevistados pelo Ibope dizem que seguiriam a norma da religião, caso ela proibisse o uso de métodos anticoncepcionais. Setenta e três por cento simplesmente ignorariam a orientação.
- Isso confirma que as pessoas têm parâmetros diferentes dos das igrejas em relação à reprodução. É preciso dizer à população: quando você concorda com a proibição da camisinha, colabora para a disseminação da Aids. A religião está se distanciando da realidade das pessoas - sustenta a socióloga Dulce Xavier, ativista da ONG Católicas pelo Direito de Decidir, com sede em São Paulo.
Os católicos ouvidos pelo instituto demonstram clara dissonância com os preceitos defendidos com ênfase pelo Papa Bento XVI. Para 49% dos entrevistados, a Igreja é a favor do planejamento familiar. Bento XVI, em seus discursos durante a passagem pelo Brasil, em maio, foi claro no discurso contra o sexo fora do casamento e contra o uso de métodos anticoncepcionais, inclusive a camisinha.
O Ibope mostrou ainda que 64% dos evangélicos também identificam nos discursos dos pastores nos templos posturas favoráveis ao planejamento familiar.
- Em alguns países, principalmente naqueles onde a fecundidade é alta, a religião segura e molda o comportamento dos casais. Aqui o catolicismo é mais light - afirma a demógrafa Suzana Cavenaghi.
- Na prática, os católicos estão fazendo ouvido de mercador - concorda Ana Cristina Gonçalves, integrante do núcleo de Inovação e Conhecimento da agência de publicidade Nova S/B, especializada em comunicação de interesse público.
A pesquisa do Ibope mostrou ainda uma tendência à aceitação maior do aborto nos casos em que o feto corre risco de vida (para 69% a favor e 30% contra). Quando as mulheres enfrentam esse perigo, o percentual favorável é de 59% e contrário, de 34%. Quarenta e nove por cento aceitariam o aborto nos casos em que a gravidez é resultado de estupro, e 43% seriam contrários.
Já quando é fruto de falha de anticoncepcionais ou de opção da mulher por falta de condições financeiras para criar o filho, a reprovação é majoritária: 86% no primeiro caso e 84% no segundo.
Para a pesquisadora Sônia Corrêa, os obstáculos para o uma política bem sucedida de planejamento familiar no Brasil não estão relacionados à fé: - Os entraves não são religiosos. Eles estão nas lacunas das políticas públicas.
Em 2006, foram distribuídos 14,8 milhões de anticoncepcionais no país. O Ministério da Saúde anunciou, há um mês, que começaria ainda este ano a monitorar o fornecimento de medicamentos às prefeituras."
A matéria da repórter Maiá Menezes foi publicada em O Globo no dia 08/07/2007
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04/07/2007 12:24
Comunicação Pública: o desafio é a prioridade no cidadão
Em entrevista exclusiva para o blog CIP, o professor e doutor em Comunicação, Jorge Duarte fala sobre Comunicação Pública, um conceito mais amplo que àquela feita por instituições do Estado. De acordo com Duarte, a Comunicação Pública é caracterizada por ter o foco no interesse do cidadão. O que é um grande desafio para instituições púbicas e privadas. Ele é um dos autores do livro Comunicação Pública: Estado, mercado, sociedade e interesse público, lançado esta semana em Brasília. Leia a nota anterior sobre o
livro.
Blog CIP - Os autores do livro divergem sobre o conceito de comunicação pública. Por que é tão difícil chegar a um consenso sobre isso?
Jorge Duarte -
O consenso não é importante, mas todos que tratam do assunto valorizam os mesmos aspectos. O termo despontou há cerca de cinco ou seis anos e estamos tentando adotá-lo como referência para um tipo de comunicação voltado para o interesse do cidadão, ou do interesse público como alguns preferem. É uma discussão complexa, mas é ótima. Mais importante do que haver um consenso é a própria discussão, pois passamos a ter outro olhar sobre as possibilidades da comunicação. Ainda hoje ela é muito voltada para os objetivos do emissor. Quando falamos de comunicação pública colocamos o interesse do usuário, do público, do cidadão em primeiro lugar. E isto é um avanço extraordinário, embora, claro, devesse ser considerado normal e até óbvio.
Blog CIP - Quais os principais problemas da Comunicação Pública no Brasil? Ou trata-se de uma comunicação de órgãos públicas, muitas vezes com interesses privados?
Jorge Duarte -
Acho que a principal dificuldade é que temos uma tradição de uso instrumental da comunicação voltado para as corporações, as instituições, as autoridades, os emissores. A comunicação ainda é um instrumento unilataral-vertical-descendente, utilizado basicamente para transmitir idéias, informações, para convencer. Em geral esquecemos que comunicação é diálogo, entendimento, compreensão, interlocução. Quem detém o poder e os meios deveria estar mais preocupado em entender as pessoas, em ouvir os públicos, em adaptar as informações às necessidades e possibilidades dos interlocutores. Em geral, entretanto, nos damos por satisfeitos quando distribuímos mensagens, às vezes, inclusive, sem preocupação de verificar, sequer, se foram compreendidas.
Blog CIP A comunicação feita pelas instituições públicas está distante dos interesses do cidadão ou isso começa a ser sanado?
Jorge Duarte -
Acho que há uma grande evolução nos últimos anos e o livro chega neste processo de conscientização institucional, se é que é possível usar esta expressão. Acho que o processo começou com a chegada maciça de profissionais concursados em vários órgãos públicos. Este processo reduziu a frequência da comunicação personalista em um primeiro momento e hoje começa a limitar também a comunicação voltada para beneficiar os interesses das corporações e instituições. Nossas instituições ainda são muito autocentradas e autoreferentes e a comunicação tende a expressar esta cultura.
Blog CIP É possível fazer uma comunicação voltada para o interesse público em instituições privadas?
Jorge Duarte -
Sim, é mais complexo pois as instituições privadas precisam priorizar a comunicação mercadológica, mas muitas delas já perceberam que depois da valorização do cliente, do consumidor, do usuário, o próximo passo é tratá-lo como um cidadão pleno de direitos. Isto pode ser o cumprimento de uma responsabilidade social e também um diferencial competitivo. É preciso, entretanto, verificar se isto é uma prática corriqueira, consciente e séria de determinada empresa ou apenas uma estratégia pontual ou temporária de um tipo de marketing.
Blog CIP No livro você descreve como fundamental para a operacionalização da comunicação pública, a definição de políticas formais. Mas são escassas as políticas de comunicação sistematizadas em instituições públicas. Como chegamos a este ponto?
Jorge Duarte -
Políticas públicas formais de comunicação ainda são escassas, como você diz, por falta de tradição, experiência e oportunidade política. A preocupação maior ainda é resolver os problemas do dia, que são muitos. Mas isto está evoluindo. Empresas públicas como a Embrapa já possuem políticas formais e inclusive disponibilizadas ao público e muitas organizações estão realmente interessadas em construí-las. Acho que a evolução nesta área é irreversível. Importante lembrar também que muitas vezes a caracterização de uma política informal já é um grande passo. O simples fato de se pensar e operacionalizar a comunicação de uma maneira estratégica e em benefício da cidadania já é um avanço extraordinário. A formalização desta prática em documentos reconhecidos institucionalmente vem na seqüência.
Blog CIP O que seria preciso para que se faça uma comunicação mais democrática e plural no Brasil?
Jorge Duarte -
Acho que só o fato de discutir o assunto já leva nesta direção. Outros ingredientes importantes seriam a criação de uma cultura de comunicação nas instituições e um debate interno sobre a quem ela serve. Mas creio que estamos em um caminho sem retorno. São raros os casos em que houve retrocesso nas políticas de comunicação depois de consolidadas. Há uma nova geração de profissionais que desejam mais do que promover, publicizar, divulgar e há instrumental teórico e referenciais para subsidiá-los nas discussões. Há algum tempo o simples fato de colocar a comunicação na agenda das instituições já era motivo de comemoração. Hoje passamos desta fase e buscamos colocar a comunicação a serviço da diversidade, do diálogo, do entendimento e da compreensão.
Blog CIP - Você acha que as universidades e faculdades de Comunicação deveriam inserir a Comunicação Pública em seus currículos?
Jorge Duarte -
Há cursos de pós-graduação em comunicação pública e acho que, dependendo das características de determinado curso de graduação, seria importante que houvesse esta disciplina. Mas não é tão essencial quando discutir em aula qual o uso e possibilidades da comunicação. Um aspecto interessante é que em geral o debate ocorre apenas sobre como a imprensa faz comunicação. Esquecemos que governos, legislativos, judiciário, ongs, empresas também tem estruturas, profissionais e instrumentos de comunicação, e portanto, responsabilidade sobre a forma com que disseminam informação, dão acesso, dialogam com os seus diferentes interlocutores.
Por Karla Mendes
enviada por Editor
22/06/2007 16:25
O mascote e a Natureza
Por Maria Helena Passos
Braços, pernas, corpo, pescoço, cabeça e rabinho _ tudo de latinha. É o Amigaço, um mascote que se intitula o maior amigo da natureza. A cada dia, ele está mais popular entre camadas pobres da população. É o garoto propaganda do Reciclaço, um programa sem fins lucrativos da Metalic Brasil, companhia do grupo CSN, dedicada a reciclagem de embalagem de alumínio.
Trata-se de uma empreitada que envolvia, em dezembro de 2006, um apreciável contingente de participantes ao longo do processo.
Na base, estão 50 mil catadores credenciados de latas de bebidas em 132 municípios do Pará, Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco e Bahia. Eles recebem subsídio da Metalic, à base de 0,10 por quilo coletado, que lhes é repassado pelos sucateiros másteres, além de auferirem o valor de mercado do comprador de sucata.
O rol de sucateiros envolvidos no Reciclaço soma 389 estabelecimentos credenciados em 17 estados brasileiros, dos quais 77 são pessoa jurídica e, por essa razão, batizados de másteres.
Na outra ponta, está a Gerdau, grupo siderúrgico gaúcho que adquire tanto uma parte da sucata produzida pela Metalic em Maracanaú, no Ceará, quanto dos sucateiros capazes de entregar insumo de caminhão.
Em 2006, o índice de reciclagem, aferido pela ERM Brasil, uma consultoria ambiental internacional, foi de 88%, superando pela segunda vez a meta de 75%. Ele é a relação entre tudo o que a Gerdau compra de lata no Norte e Nordeste e a venda da Metalic para cada região.
Nos quatro primeiros meses de 2007, o Reciclaço deu conta de 77.989 toneladas de latas de aço. No ano de 2006, o volume atingiu 19.047 toneladas. O inequívoco avanço se reflete, inclusive, no valor do subsídio.
Ele já foi de R$ 0,40 por quilo de latas. Seu valor caiu a um quarto em função da quantidade de sucata disponível no mercado, do tipo e tamanho das festas populares das quais participa o programa.
O maior dos eventos é a coleta de lixo no Carnaval de Salvador. Mas o Reciclaço também participa, por exemplo, do Dia Mundial de Limpeza de Praias em todo o litoral nordestino e das atividades do Dia Mundial das Águas em Maracanaú.
Em todas as iniciativas de educação ambiental, o Reciclaço se divulga através de campanha de outdoors, televisão e rádio. A verba de comunicação do programa denota o interesse que a CSN, através da Metalic, dedica ao projeto em legítima informação de interesse público: em 2006, foram investidos um quarto dos R$ 176.500,00 previstos no orçamento de 2007.
No ano passado, os subsídios somaram R$ 1,6 milhão. Diante do porte do problema e da produção anual da CSN, pode-se entender, de fato, que o Reciclaço é um modestíssimo empreendimento. Mas a velocidade com que avança é mais do que louvável. A Natureza agradece.
Maria Helena Passos é jornalista
helenawf@uol.com.br
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